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Anonimato, luta e conquistas: o 8 de março na tradução

Atualizado: 13 de mar. de 2023



Na próxima quarta-feira, dia 8, marcamos o Dia Internacional da Mulher. A data presta reverência à luta das mulheres ao longo da história por equidade de direitos e oportunidades em relação aos homens e também serve de alerta sobre os graves problemas que elas enfrentam, como machismo, violência doméstica, baixos salários, jornadas longas...


Enquanto o mundo reflete sobre a importância da data e de olhar para o tema com a devida atenção, a Traddutz reuniu algumas histórias de batalhas enfrentadas por elas também na tradução. Assim como era comum na literatura e nas artes, muitas tradutoras preferiam (ou precisavam) assinar seus trabalhos com abreviaturas, nomes sem gênero marcado ou pseudônimos masculinos. Havia também muitos casos de anonimato pelas mesmas razões.


O anonimato na área, especialmente na tradução literária, era muito comum entre o início do século 19 e meados do século 20. O trabalho de mulheres em funções consideradas "intelectuais" não era "bem visto" na sociedade, por serem tidos como "masculinos" à época. Só mais tarde elas passaram a ter crédito pelas traduções que faziam.


Por outro lado, foi justamente por meio da tradução de textos literários que mulheres começaram a ter acesso a meios intelectuais, fazendo a ponte entre idiomas de obras das mais diversas. No livro Gender in Translation: Cultural Identity and the Politics of Trasmission (Gênero na tradução: identidade cultural e as políticas de transmissão, em tradução livre), Sherry Simon aponta a Renascença inglesa como o marco no qual as mulheres passaram a ser vistas como intelectuais -- justamente por meio da tradução.


O Brasil viveu o mesmo processo mais tarde, entre os anos 1930 e 1940. Diferentemente das inglesas, que traduziam principalmente textos religiosos, no Brasil elas faziam isso com textos seculares -- os religiosos no país já tinham sido "tomados" por tradutores homens...


Tradução, traição: nativos e colonizadores

Não faltam exemplos de mulheres que atuaram de forma notável como profissionais de tradução, ao longo da história, traduzindo principalmente idiomas nativos e indígenas totalmente desconhecidos por colonizadores, mas importantes no processo de acesso aos povos locais.


Western Europe owes its civilization to translators

A frase acima, atribuída a Kelly Louis (A Europa Ocidental deve sua civilização aos tradutores, em tradução livre) retrata uma realidade indiscutível: foi por meio de intérpretes -- muitas delas mulheres nativas -- que países colonizadores passaram a ter acesso a populações de países colonizados.


Foi o caso, por exemplo, de Malinche, indígena da etnia nahua que falava espanhol e os idiomas asteca e maia e atuava como tradutora, com um papel decisivo na conquista do México. Outro caso é o de Krotoa, do grupo étnico Koi, da região entre Botsuana e Namíbia. Ela trabalhou como intérprete para os holandeses durante o estabelecimento da Colônia do Cabo.


Outras tradutoras:

  • Sarah Winnemucca, da etnia paiute (noroeste de Nevada, EUA), traduzia para o exército estadunidense;

  • Sacagawea, da etnia shoshonoe, falava o idioma da sua tribo, traduzia as mensagens em hidatsa ao marido, que por sua vez as traduzia para inglês durante a Expedição de Lewis e Clark;

  • Ch'iao Kuo, que atuava como intérprete entre mandarim e o dialeto hsien, de seu povo -- e é considerada crucial por ter aproximado sua tribo do exército chinês;


Tradutoras brasileiras notáveis

Clarice Lispector
Clarice Lispector

Não faltam ótimos exemplos de tradutoras brasileiras, também. Além de ser uma das autoras mais traduzidas da literatura nacional, com mais de 200 versões em mais de 10 idiomas (do checo ao japonês), Clarice Lispector, nascida na Ucrânia, também atuou como tradutora.


Embora dominasse, em diferentes níveis, inglês, francês, espanhol, hebraico, iídiche e russo -- além do nosso idioma, claro -- a maior parte das traduções de Clarice era feita a partir dos três primeiros para o português, trazendo para o Brasil obras da literatura estrangeira, de Agatha Christie a Anton Chekhov. Ela traduziu cerca de 35 livros de diferentes gêneros, contos, peças e artigos. "Traduzo, sim, mas fico cheia de medo de ler traduções que fazem de livros meus", disse certa vez.


Em 1968, Clarice publicou na Revista Jóia a crônica "Traduzir procurando não trair" (em referência à expressão em italiano "traduttore, traditore", ou tradutor, traidor). No texto, ela reflete sobre o ofício da tradução e aponta suas preocupações em manter a fidelidade nas traduções que fazia.


Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz

Primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), a cearense Rachel de Queiroz traduziu mais de 50 obras literárias a partir do inglês e do francês, além de outras línguas, de forma indireta.


Só na década de 1940, Rachel traduziu 33 livros. Nesse período, a escritora vivia quase exclusivamente da tradução, trabalhando de 8 a 10 horas por dia, emendando um livro no outro. "Eu lembro que, na época em que traduzia, eu me sentia como se estivesse desmanchando a costura, desmanchando o crochê de certos escritores, descobrindo os pontos, os truques prediletos deles", já afirmou.


Entre os autores que Rachel traduziu estão Fiódor Dostoiévski, Emily Brönte, Jane Austen e Jules Verne. Ela também é a responsável pela tradução para o português de biografias de Charles Chaplin, Leon Tolstói e Alexandre Dumas.


Outra brasileira que fez história entre as tradutoras foi Pagu, apelido de Patrícia Rehder Galvão, escritora, jornalista, feminista e responsável por revelar e traduzir autores até então inéditos no país, como James Joyce, Eugène Ionesco, Fernando Arrabal e Octavio Paz. Pagu era uma das expoentes do movimento modernista brasileiro.


Mês da mulher na tradução

Você sabia que existe uma campanha mundial que celebra e busca reconhecimento para mulheres tradutoras, inclusive com um mês -- agosto -- dedicado a elas? Na data, livrarias em todo o mundo oferecem descontos em livros, além de palestras para conscientizar sobre a baixa representatividade de obras traduzidas ou escritas por mulheres -- o site Women in Translation ressalta que apenas um terço das traduções para o inglês sejam de livros escritos por mulheres.

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